segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

É o Jacaré.


Ele era vermelho, por conta do sol. Na minha memória, ele vive de camisa aberta, exibindo um peitoral que um dia foi branquelo, mas que depois de tanto sol, tanta laje, era vermelhasso.

Querido Jacaré,

Quase não me lembro da cor dos seus cabelos antes de serem brancos, eu te vi pouco, tio. Mas sei que você era meio loiro. Porque vi numa foto nossa, e porque  recentemente minha mãe me disse que seu cabelo tava sendo teimoso, e crescendo, "colorido", onde há alguns anos já morava uma careca.
 Lembro de quando você usava algo pra cobrir a cabeça: bonés, chapéus, gorros... Devia ser  a crise pra aceitar que tava ficando careca, igualzinho ao vô Zé. E você tava sempre de calça jeans. Sempre, sempre. E também tinha aquele chinelo, branco e azul, sabe? Minha mãe, pra não perder o costume, te falava que era horrível e encardido, e você respondia, todo debochado, que pedreiro é assim mesmo e logo agarrava minha mãe, e soltava, olhando pra mim "essa véia é chata assim desde criança, sabia?", não sabia, tio. Mas sempre imaginei.
E você sempre foi de contar vantagem comigo. Além de sempre me fazer adivinhar quem era do outro lado da linha no telefone (e eu sempre acertava, ou ficava quieta - nunca errei nosso quiz), você também fazia graça quando vinha nos visitar: o famoso "quem éééé" de praxe aqui em casa, era sempre seguido de um "é o Jacaréééé". E logo que entrava, já contava, que foi você quem construiu essa casa. E também que morava mais perto dos meus avós que eu, e que foram suas mãos, também, que construiram a casa deles. Quem mandou você morar do ladinho do cemitério, né?
E aí, tem o cemitério. Te visitar no dia de finados, era comum, já que sua casa não era pertinho da gente e sim "dos meus avós"... Nós primeiro passávamos no cemitério, e como mágica, você "adivinhava" que a gente tava por lá, e aparecia... Algumas vezes mastigando um mato, outras tantas fumando. E aí nós iamos pra sua casa, com você.
A sua casa. Cada vez que eu ia lá, ela tava diferente: teve o quarto da Jana no cômodo fora da casa, teve seu "ateliê" lá, teve a cozinha da tia Val, e até uma vendinha. Todas as vezes que eu fui na sua casa, tio, minha mãe me contava que meu irmão andou a primeira vez lá. Que ele foi só engatinhando, e de repente, quando ela percebeu, ele tava correndo. E na sua casa, a gente sempre comia frango! E polenta.
Lembra quando você foi morar no Paraná? Foi engraçado ir te visitar tão longe. Ainda mais depois das notícias de que você tinha se juntado ao MST. Quando eu cheguei lá, você não tava mais no assentamento, mas sim numa casa bonitinha num bairro perto do aeroporto. A gente nem pode conversar sobre o MST, porque a vó Aurora não deixou... E seu carro azul, tava lá, brilhando na garagem. E você e a tia Val nos receberam com frango, polenta, arroz, feijão... Posso sentir o cheiro, e lembrar do quanto eu comi aquele dia. E você me disse que caipira gosta mesmo é de morar longe.
Você gostava de morar longe, né! E também era meio avesso a visitas. Só podia ir duas famílias de cada vez na sua casa... Eu não entendia bem o porquê, mas lembro da minha mãe, meio desaforada com você como sempre, falando que você só podia ser meio doido mesmo, bicho do mato.
Uma vez eu fui na sua casa e tinha uma árvore com flores amarelas na esquina, e eu fiquei apaixonada por ela, que parecia um buquê de flores gigante. E você me disse que ela era tão bonita quanto eu. "Menina bonita da pinta feia"... Você sempre me falou isso. E também tinha sua vizinha que fazia um pão caseiro delicioso... Que cheirava bem. E você me falava que era bem melhor morar longe da aglomeração de gente.
Mas voltando a sua época no Paraná... Eu acho que te vi por lá umas duas, no máximo três vezes. Logo veio a noticia chata de que você tava com alguma doença. Ai, tio. Logo na garganta? Sua voz sempre foi tão sua, você sempre foi meu tio rebelde, com voz de caipirão rebelde... E eu te vi rouco pela primeira vez na vida. Mas você ainda me disse sobre ser caipira, que o vô Zé era um "véio xarope", e me abraçava forte, meio atrapalhado, como sempre abraçou. E falou que eu era uma "menina bonita".
Depois você foi perdendo a voz, aos pouquinhos... E operou, e em algum momento que eu pisquei, você perdeu a voz. E morou aqui em casa, por alguns meses. Minha mãe te dava bronca todo dia, né? Pra você deixar de ser turrão, pra falar com seus filhos, porque perdoar é de Deus, que Jesus ia ficar feliz, que Nossa Senhora isso, aquilo e todo aquele papo da minha mãe. "Jesus te ama", quantas vezes eu não vi isso escrito por bilhetes espalhados pela casa por ela, pra você? E quantas vezes, você não respondeu, mal-criado, por bilhete, também? Dois turrões, você e minha mãe.
E eu prefiro não falar nada sobre seus últimos meses. De longe, você deixou de lado o tio caipirão rebelde, turrão... E se emocionava com a nossa presença. Chorou algumas vezes me abraçando, e mexia os lábios dizendo que eu era bonita, que eu era gente fina, e me abraçava de novo. E a gente ria falando "mal" da minha mãe...
E eu te vi pela última vez no dia 25 de dezembro, do ano passado. E eu te chamei de Jacaré, e você mexeu os lábios pra me responder, e como todas as vezes que você conversou comigo depois de perder a voz, eu fiquei nervosa, comecei a ver tudo borrado e com vontade de chorar.
Eu prefiro lembrar de você falante, comendo arroz, frango... Você dando a sua risada, de camisa aberta, e até com a boina que você resolveu usar uns tempos atras e que te deixou a cara do vô Zé.
Mas não foi legal, tio. Você fazia parte do olimpo dos tios, que são 'imortais" e não podia fazer isso com a gente.
Só que eu esqueci que você é o tio turrão, e esfregou na nossa fuça que ser imortal de verdade, é no coração e na memória. Mas a gente fez também foi rebelde, e encheu sua despedida, e a família inteira esteve lá, ao mesmo tempo.

"Quero ver quem não chora pela dor de uma saudade..."

Um comentário:

  1. Erci te amo muito muito. Já estou morrendo de saudades de você, o que me conforta é a certeza de saber que você está nos braços do Pai do Céu, e que Jesus te deu muita força e coragem para lutar e preparar sua longa viagem, foi difícil mas na medida do possível eu estava lá do seu lado fazendo um carinho na sua mão, dizendo sempre Jesus Te Ama Muito, confia no Senhor. Erci você pode tudo naquele que te fortalece. E Agora que você está nos braços do Pai, olhe por nós. Te amamos muito.

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