terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O meu bloco e a herança.

Primeiro eu fui tomar banho pensando em te escrever. Não mais um sms, como foi hábito por tanto tempo. Aí pensei em um e-mail. Mas pra que? Eu gostaria de receber um e-mail seu, agora? Sim, muito. Mas não me faria nada bem, não mesmo. Eu tô tentando ser sensata, e um e-mail causaria ansiedade, dor de cabeça, dor de barriga... Lágrimas. Tudo que não me fez um pingo de bem nos últimos meses.
Desisti do e-mail.
Pensei em gravar minha voz, pra mim mesma. Mas e minha voz de pata rouca?
Desisti da gravação.
Um vídeo? ...Nem pensar.


Aí, eu desisti da ideia de te escrever, e comecei a pensar numa roupa pra vestir no meu aniversário, que logo logo, tá aí. E me deparei com uma incrível herança de coisas minhas que você deixou pra mim:

- Minhas cor branca-branca-muito-branca - sim, porque antes de você, eu não saia de shorts, saia, vestido.. E morria de vergonha de brilhar no sol.
- Meu guarda roupa - é, apesar dele existir muito antes de eu ter consciencia da sua existencia (e até da minha), esse pedaço da esquerda do quarto me lembra muito você. Pelas duas portas que já foram preenchidas por você e seu vasto vestuário de roupas de dormir e de camisetas bonitas que eu te dei, pelos vestido que eu comprei depois que você passou a ser um pedaço de mim, e do seu desodorante, que hoje, pasme, surgiu no meio dos meus cremes.
- Meus cremes. - Não sei que adjetivo usar pra isso, mas cremes e você, tem tudo a ver. Um dia eu hei de desvincular a sua pessoa a esse hábito.
- Meu chinelo quebrado, que morou na sua casa por muitos meses, e quando chegou na minha casa, quebrou. Ainda não tive coragem de joga-lo fora.
- A salsicha longuete. É, ela que por muitas e muitas vezes foi arremessada ao chão pra caber eu e você na minha little cama de solteiro. Hoje, mesmo aqui, sozinha e solteira, eu não caibo mais na cama junto com ela como era antes.
- Meu livro preferido. Essa é a segunda maior injustiça de todos os tempos da última semana, por que raios, toda vez que eu vejo a capa laranjinha da Marjane Satrapi, eu vejo você?
- O sucrilhos. Esse, me frustrou de uma maneira... Meu companheiro desde a falecida pantufa de coelhinho... Como ousa ser tão seu?



Me assusta. E assusta também, que logo, isso vai ser tão meu, quanto você... Dentro de mim.




(Escrevi ouvindo O Bloco do Eu Sozinho, e é exatamente assim que me sinto agora: passista, linha de frente, rainha de bateria, mestre sala e porta bandeira de mim. Tudo pesando e se equilibrando aqui.)

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